Como auxiliar uma família em crise

Tempo de leitura: 7 minutos

Todas as famílias estão sujeitas a crises, mas estas não precisam necessariamente tomar grandes proporções e causar danos aos membros da família.

A cada nova etapa do ciclo de vida familiar, um novo desafio pode surgir.

Essas transições são momentos de instabilidade que, se conduzidas com sabedora, impulsionam a família ao crescimento, pois criam uma necessidade de reorganização das relações entre os membros e os levam a reelaborar o funcionamento familiar.

Toda a crise familiar representa um perigo para a estabilidade da família mas também representa uma oportunidade para mudança, crescimento, união e fortalecimento do caráter e das relações.

Porém, crises sérias podem ocorrer a partir de doenças físicas ou mentais, desemprego dos pais ou problemas financeiros, responsabilidades pelos cuidados de um parente idoso e acidentes com morte na família.

Algumas famílias são capazes de lidar com tais crises, ao passo que outras se desfazem sob o sofrimento.

Não é raro que a evitação seja a estratégia escolhida ou usada por conveniência.

Muitas famílias acreditam que não discutir a situação de crise é uma boa solução, mas fingir que o problema não está se impondo pode terminar em mais sofrimento e isolamento entre os membros da família.

Lembre-se de que grande parte da força interior que as pessoas adquirem na vida provém de enfrentar e vencer problemas e infortúnios.

Nosso papel como profissionais da saúde e educação

É possível termos ações que favorecem a resiliência parental.

Podemos aprender esses atos intencionais e precisamos ter ações para auxiliar o sistema familiar.

É possível, através dessas ações:

  • auxiliar a prática de relacionamentos mais saudáveis com as crianças;
  • psicoeducar;
  • explicar aos pais que tudo que acontece na família afeta os filhos, etc.

Parece claro para nós da área da psicologia, mas precisa tornar-se claro também para aqueles que não são dessa área: é fundamental esclarecer que o que ocorre na família afeta os filhos.

O modo como os pais resolvem os problemas, conseguem se recuperar e as posturas que têm afetam diretamente as crianças.

Por isso a importância de termos ações que favoreçam a resiliência parental.

Essas ações funcionam como ações de proteção à família e às crianças.

A seguir, trago algumas orientações que podem ser repassadas a educadores, pacientes, pais e outros profissionais que lidam com crianças.

Como ajudar as crianças a atravessar uma crise na família

Ao enfrentar uma crise familiar, seu filho pode aprender lições valiosas:

  • o quanto os membros da família representam uns para os outros;
  • a importância de se recorrer a outras pessoas e contar com ajuda;
  • como resolver problemas em conjunto;
  • como se comunicar de forma efetiva;
  • como identificar e usar seus recursos internos na solução de problemas pode ajudá-las a adquirir maturidade frente à vida.

Converse sobre a crise com as crianças

É natural que os pais queiram p´proteger seus filhos de informações tristes ou desagradáveis.

Alguns pais mantêm segredo sobre um irmão ter nascido morto ou com alguma síndrome.

Outros pais recusam-se a responder honestamente a perguntas a respeito de um parente que esteja seriamente doente, ou um pai que perdeu seu emprego.

Negação é a estratégia adotada por aqueles que acreditam que falar sobre uma situação ruim somente a torna pior, então fingem que está tudo bem.

As evidências, porém, indicam que as crianças sentem quando algo está errado ou não está sendo dito. Essa falta de abertura faz com que as crianças se sintam inseguras, confusas e alienadas de seus pais.

Assim, quando existe um problema que afeta toda a família, costuma ser melhor tratá-lo abertamente.

As famílias que resolvem com sucesso as crises são aquelas cujos membros se comunicam.

Conte a seus filhos a verdade sobre uma crise, para que eles estejam preparados para lidar com ela. Seja honesto e aberto a respeito dos fatos.

Explique a situação em linguagem que eles possam compreender.

Afirme que, embora a situação não esteja boa para ninguém, se atravessarem a tempestade juntos, acabarão por recuperar o bem estar e tudo ficará bom de novo para todos.

Por exemplo, você pode explicar o desemprego do pai dizendo: “papai perdeu o emprego. Enquanto ele procura outro, nós vamos precisar nos unir e nos ajudar. Vai ser complicado por um tempo porque o dinheiro vai diminuir e precisaremos cortar despesas, mas vamos superar isso e vocês podem ajudar muito abrindo mão de algumas coisas”.

Seja animador e dê segurança

Após explicar os fatos, tranquilize seus filhos.

Faça com que saibam que a família se adaptará e atravessará bem este período.

Por exemplo, ao falar sobre o desemprego do pai, assegure às crianças que haverá sempre dinheiro suficiente para a comida e que, cedo ou tarde, o pai conseguirá um novo emprego.

As crianças também necessitarão, nesta época, de muito acolhimento.

Diga-lhes frequentemente quanto você gosta delas, e o quanto está grato por colaborarem.

Envolva as crianças nas decisões

É uma boa ideia reunir a família e conversar a respeito de como lidar com a situação.

Deixe que as crianças contribuam com ideias sobre o que podem colaborar.

Deixe-as fazer o que se propõem, mesmo que seja algo sem impacto real sobre o problema.

O que é importante é que se envolvam ativamente na descoberta de maneiras de lidar com a situação, de forma que possam ganhar um senso de competência, de pertencimento.

Trabalhe no sentido de crescer com a experiência

Seja positivo em seu ponto de vista e tente achar aspectos bons na crise.

Você poderia dizer, por exemplo: “Uma coisa boa nisto é que estamos nos unindo mais”, ou “Podemos ganhar esta parada, somos o tipo de família que tem força para fazê-lo”.

Ou ainda lidar com algum humor: “No final tudo dá certo, se não deu certo ainda é porque estamos no meio do caminho”.

Procure apoio social

Para famílias com problemas, um importante fator de proteção é o apoio social: buscar pessoas ou organizações que possam ajudar.

Estudos de famílias enfrentando problemas revelam, invariavelmente, que aquelas que buscaram conselhos e auxilio de amigos, parentes e grupos comunitários, foram visivelmente mais bem-sucedidas que aquelas que não o fizeram.

Pedir e aceitar ajuda são lições importantes para seus filhos também. 

Ensine sobre a privacidade da família

As crianças precisam saber que algumas crises são particulares e não devem ser reveladas a outras pessoas.

Você pode discutir abertamente com as crianças mais velhas as razões pelas quais pessoas de fora poderiam entender mal o assunto ou não serem solidárias.

Você poderia dizer algo como: “Este assunto é somente da nossa conta. Embora não seja segredo, não precisamos contar a outras pessoas, porque algumas pessoas podem não entender sobre a doença mental de sua mãe e queremos manter as coisas o mais fácil possível de lidar até que melhorem”. 


Texto parcialmente extraído do livro “Respondo o quê? – Problemas e dilemas” , da psicóloga Cynthia Borges de Moura.

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