O consumismo na criança

Tempo de leitura: 5 minutos

Hoje, venho aqui para falar sobre um assunto muito sério: o consumismo infantil.
Algum tempo atrás, me deparei com uma palestra em um congresso de publicidade cujo tema era “Lugar de criança é no supermercado”.
Isso me assustou muito, e quero explicar para vocês o porquê.

Lugar de criança não é no supermercado

Primeiro, ressalto que, hoje, 80% do poder de decisão de compra de uma família vem da criança (aqui, entende-se criança de até 12 anos).
Isso não implica somente na compra de brinquedos, mas em tudo. Falamos de lençóis com temática de um desenho, curativos com personagens estampados, sucos cuja embalagem é mais colorida e animada e por aí vai.
Esse poder é preocupante porque a criança não percebe o poder de persuasão e é extremamente vulnerável à propaganda.
O cérebro da criança ainda está em formação, e, por isso, não compreende que alguém está lhe implantando um desejo.

O perigo da internet

Um exemplo que cabe bem aqui é o da internet. Muitas pessoas fazem sua renda através de vendas ou propagandas na internet, que é o caso de muitos youtubers. Agora perceba: o principal público de um youtuber é a criança, já que possui muito tempo livre e não exige um conteúdo muito profundo.
As crianças não entendem que os conteúdos dos youtubers são publicitários.
Quando o youtuber fizer propaganda de algum objeto, seu público vai automaticamente assumir que aquilo é bom, porque se gosta do apresentador e o apresentador gosta daquilo que está mostrando, irá gostar também.
Dessa maneira, a criança não reconhece a persuasão, porque está diante de uma pessoa querida, e, consequentemente, desejará o que lhe foi apresentado.

O cérebro em formação

Quando as crianças recebem aquilo que queriam, têm o sentimento de frisson, aquela sensação de êxtase que pode ser confundida com felicidade.
O problema do frisson é que o cérebro está em período de formação e se “constrói” com ele, já que entende que a substância é natural.
Ao entrar na vida adulta, o cérebro sente falta da substância. É dessa maneira que se instala a semente do consumismo, porque o cérebro é, agora, viciado em frisson.
É aqui que os perigos se intensificam, porque esse desejo pode levar ao abuso de drogas, cujo frisson é semelhante ao que o indivíduo possuía na infância ao ansiar por brinquedos e ganhá-los. Além disso, estudos apontam que o consumismo fez aumentar a criminalidade e a obesidade infantil.
Uma cultura que valoriza o consumismo e incentiva tal formação do cérebro é um fator gigantesco de risco para transtorno de conduta e comportamentos compulsivos.

A adaptação hedônica

Ainda, existe o problema da adaptação hedônica, que diz que nos acostumamos com tudo aquilo que é bom.
Você sabia que basta 7 semanas para que um adulto se acostume com coisas boas? Isso mesmo. O que antes era maravilhoso passa a ser somente normal após pouco mais de um mês.
E você sabia que esse tempo é menor ainda nas crianças?
Esse é outro motivo para lutarmos mais e mais contra o consumismo!
O frisson da criança faz com que os pais continuem comprando porque querem ver seus filhos felizes. Entretanto, por adaptação hedônica, o presente logo perde o seu valor!

A insatisfação crônica

Além disso tudo, pesquisas em Psicologia Positiva nos dizem que quanto mais escolhas tenho, maior o meu índice de insatisfação.
Essa insatisfação crônica faz com que eu deixe de tolerar coisas corriqueiras e desenvolve frustrações devido à grande variedade de opções.
Um exemplo claro disso é ir ao shopping em um fim de semana e ir durante a semana.
No sábado ou domingo, ao encontrar uma vaga no estacionamento, por mais distante que seja, ficamos felizes e nos sentimos sortudos por ter encontrado após “pouco” tempo procurando.
Durante a semana, quando o estacionamento está vazio e é possível escolher qualquer vaga, não ficamos contentes. Pensamos que poderíamos ter estacionado em outra vaga porque lá não batia sol ou porque era mais perto da saída ou outras razões…
Você entendeu o que quero dizer, não é? Essa é a insatisfação crônica que enfrentamos e que é intensificada com o consumo desenfreado.

Como lutar contra a onda de consumismo

Nós, profissionais das áreas da saúde e educação, devemos orientar os pais para que ensinem os itens a seguir à criança:

  • – brincar
      Ensinar que a brincadeira em si é o que importa, e não o brinquedo. A felicidade vem do ato de perceber que brincar é divertido e faz bem. A felicidade vem de dentro, quando a criança percebe, por exemplo, que está pulando corda melhor.
  • – tolerar emoções desconfortáveis
      Os adultos também precisam aprender a tolerar emoções ruins. Muitos pais não aceitam a ideia de deixar a criança triste ao negar a compra de um brinquedo, e, assim sendo, cedem. A frustração da criança não é sofrimento! É inconveniência por não ter um desejo atendido. Um exemplo é quando chora e pede um refrigerante porque tem sede. O sofrimento vem ao não ter água para beber – o refrigerante é apenas um desejo, uma frustração. Ao dar o exemplo, as crianças também aprenderão a tolerar emoções desconfortáveis.
  • – ser bondosa
      Ensinar à criança que seja gentil e se preocupe com os outros. Diversos estudos de Psicologia Positiva apontam que o altruísmo e a bondade estão ligados com o bem-estar e a felicidade.
  • – praticar a gratidão
      Ter um pote da gratidão é uma ótima ideia. É importante ensinar a criança a agradecer pelo que tem. Uma atividade bacana é fazer uma lista semanal ou diária das coisas boas que aconteceram e adicionar ao pote. A gratidão é o antídoto da infelicidade!

Lembre-se sempre que frisson não é felicidade.
O consumismo infantil é um terreno fértil para a infelicidade. Por adaptação hedônica, a criança vai aprender a comprar e nunca vai aprender a crescer internamente, e, dessa forma, nunca será verdadeiramente feliz.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.