Dependência tecnológica

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O uso sadio da tecnologia deixou lugar muito rapidamente para dependência e falta de controle.

A dependência tecnológica afeta a saúde do indivíduo, seja criança, adolescente ou adulto.

Alguns pesquisadores não sabem se somos dependentes da Internet ou dos smartphones, que já são considerados uma “extensão” do corpo.

Mas afinal, por que dependência? Qual a razão para a utilização dessa palavra específica?

O empobrecimento de repertórios e habilidades socioemocionais, que você confere abaixo.

Consequências da dependência

Podemos citar diversos problemas causados pelo uso excessivo de smartphones, tablets, notebooks e televisões.

A saúde física é afetada por problemas de tensão, visão, desidratação, dores nas costas/pescoço, distúrbios de sono e estresse compulsivo.

Os prejuízos de saúde emocional são descontrole e dependência, além do estreitamento mental de repertórios.

O estreitamento mental faz com que a vida circule em torno das tecnologias digitais, o que afeta todas as áreas.

Por seus grandes impactos negativos na área social, de saúde e emocional, a dependência tecnológica faz parte do DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) e da CID (Classificação Internacional de Doenças).

Alguns estudos relacionam a dependência tecnológica com transtornos de humor, já que muitas pessoas que possuem dependência também possuem transtornos.

Além disso, a dependência é associada a transtornos de ansiedade, diminuição da autoestima e da qualidade de vida.

O impacto nas emoções

Quem estuda sobre emoções sabe que quem mantém a postura de uma emoção por alguns segundos passa a vivenciá-la.

Vou exemplificar: se você fizer cara de bravo, logo começará a sentir raiva e ter pensamentos voltados para a ação específica dessa emoção, que é atacar.

Agora, reflita comigo: qual é a postura que temos ao encarar o smartphone?

Cabeça baixa, respiração curta e estresse compulsivo.

Vivenciamos, sem perceber, a postura da tristeza. Dessa forma, as chances de ficarmos tristes são muito grandes.

Em termos de prosperidade, nunca fomos tão ricos e nunca tivemos tantos recursos.

No entanto, continuamos vivenciando a postura da tristeza por diversas horas no dia.

Dados levantados no Brasil

O IBGE, em 2017, apontou que o Brasil é o terceiro país mais conectado do mundo.

Ao analisar a conectividade dos nossos adolescentes, o Instituto nos posicionou em segundo lugar.

Esses dados são preocupantes porque os jovens são mais vulneráveis aos perigos da internet do que nós, adultos.

Isso se dá por conta do cyberbullying – o bullying no ambiente virtual.

Ele é muito pior porque não há um tempo de “descanso” ou um “amortecedor” para o sofrimento emocional – o jovem vive conectado.

Um segundo dado que quero destacar é o resultado obtido de uma pesquisa feita com 150 estudantes.

O estudo apontou que 62% dos entrevistados sofria de dependência tecnológica.

Digitalização da vida

Das redes sociais, a que comprovadamente mais impacta negativamente a saúde emocional é o Instagram.

Ao utilizar essa rede, comparamos vidas (o que é horrível para a gratidão) e sofremos de Fomo (Fear of Missing Out).

O Fomo é aquela necessidade compulsiva de ficarmos checando a todo momento nossos smartphones, literalmente com medo de perder algo.

Outro fator importante a se destacar é a necessidade de publicarmos nas mídias sociais qualquer coisa que estejamos fazendo.

É como se você não pudesse aproveitar aquilo que está sendo vivenciado sem postar para outras pessoas verem.

Pense quantos momentos são perdidos porque passamos muito tempo tentando tirar a foto perfeita ou buscando a legenda que melhor se encaixe para o registro.

Estudos sobre dependência tecnológica feitos nos EUA

Agora, apresento um estudo mutlticêntrico que se iniciou nos Estados Unidos da América.

Esse estudo será conduzido ao longo de dez anos, contando com 11 mil pessoas em 21 cidades, ao custo de 300 milhões de dólares.

Seu objetivo é demonstrar os efeitos das telas (smartphones, tablets, notebooks, computares e televisões) no cérebro de crianças, adolescentes e adultos.

Ainda, os cientistas presentes na pesquisa estão tentando compreender o que ninguém compreende: de que forma o uso de telas impacta na estrutura do cérebro infantil, no seu desenvolvimento emocional e saúde mental.

Uma prévia dos resultados foi divulgada pelo National Institute of Health recentemente. Confira:

  1. O uso constante de telas provoca atrofia do córtex cerebral, com possível diminuição da receptividade dos sentidos (visão, audição, tato, olfato e paladar), já que eles são menos estimulados durante o uso de tela.
  2. Há sinais de aceleração do processo de envelhecimento cerebral.
  3. Durante o uso de mídias sociais, há evidências do aumento da liberação de dopamina, neurotransmissor relacionado ao vício. Ou seja, há evidências (que serão melhor estudadas) de que o uso das telas pode viciar quimicamente, tal qual uma droga.
  4. Diminui o desempenho em testes de linguagem e matemática.
  5. Crianças que aprendem a empilhar blocos e jogar em 2d (por exemplo: Minecraft), não conseguem transferir estas habilidades para montar blocos em 3d. Dessa forma, a habilidade é restrita ao computador.
  6. Existe uma correlação que será melhor estudada entre automutilação em meninas adolescentes e uso de redes sociais.
  7. Adolescentes que usam redes sociais menos de 30 minutos ao dia apresentam menos sintomas depressivos e autodestrutivos do que aqueles as usam por um tempo superior.
  8. Até mais estudos serem apresentados, a recomendação geral é de que sejam usados aplicativos que limitem o uso de tela pelas crianças e pelos adultos. (vide últimos parágrafos)

Outros dados

Professora de psicologia da Universidade Estadual de San Diego, a Doutora Jean Twenge, relaciona a onda de popularidade dos smartphones em 2012 com uma porcentagem de adolescentes que afirmaram que se sentiam sozinhos ou deprimidos.

A Dra. Twenge não foi capaz de encontrar outra relação com essa porcentagem, que subiu rapidamente, além da popularidade do smartphone e mídias sociais.

Além do mais, o Doutor Dimitri Christakis alerta aos pais e responsáveis que evitem o uso de mídias digitais (exceto o vídeo chat) com crianças de menos de 2 anos, já que este é um período crítico para o desenvolvimento do cérebro infantil.

Cito, ainda, uma pesquisa feita pelo Pew Research Center, que apontou que 81% dos adolescentes se sentem mais conectados com seus amigos e associam as redes sociais com o sentimento de inclusão.

Por fim, um experimento de 1 mês da Universidade da Pensilvânia apontou que estudantes que limitavam o uso das redes sociais a 30 minutos por dia se sentiram consideravelmente menos deprimidos e sozinhos.

O nosso papel

Um fator muito importante é transferir a preocupação da vida real para o ambiente virtual. A internet possui tantos perigos quanto a rua. Você deixaria sua criança andar sozinha por onde desejasse?

Nós, como profissionais, devemos ter posturas que esclareçam e orientem pais, responsáveis, educadores e pacientes a respeito do uso saudável das tecnologias digitais.

  • Questionar se esse conteúdo que está sendo visualizado é bom. O que esse conteúdo está ensinando? É possível fazer a ampliação dos laços sociais demonstrando interesse, além de promover a reflexão. Lembre-se: com crianças, emprestamos o nosso cérebro adulto para que elas tenham discernimento.
  • Crianças e adolescentes devem ter um contrato para uso da internet. Nesse contrato, deve-se especificar quais os conteúdos permitidos, limitações de tempo, proibições e direitos e deveres. Também é necessário que o pai ou responsável filtre o conteúdo que pode ser acessado, porque criança não possui discernimento para saber o que pode ou não acessar.
  • Atentar-se aos recursos de denúncia e avisos –  é possível denunciar, nas redes sociais mais populares, conteúdos que não deveriam estar ali por serem ofensivos, abusivos, pornográficos e etc. Uma ferramenta bacana do Facebook permite, por exemplo, que você o avise se achar que alguém está com ideação suicida. A empresa entrará em contato com essa pessoa e perguntará se está tudo bem, além de indicar que converse com um amigo ou com o CVV.
  • Supervisionar e controlar o tempo de utilização das tecnologias, inclusive o próprio. Lembre-se sempre que a criança e o adolescente precisam de exemplos.

Um ótimo recurso de orientação é a cartilha da Sociedade Brasileira de Pediatria, disponível neste link. Essas orientações, apesar de serem da SBP, servem para todos, inclusive para nós mesmos.

Liberdade versus qualidade

Um problema ao qual precisamos nos atentar é a ilusão de achar que os nativos digitais têm a capacidade de discernimento.

Sim, eles são capazes de mexer em um smartphone e entendem a parte tecnológica, mas não compreendem o que é material de qualidade e o que não é, pois na internet não há um “filtro”.

Você quer um exemplo?

Pesquisas apontam que 82% das crianças e adolescentes assistem ao YouTube sem supervisão.

Nesse quesito, estudos mostram que quanto mais liberdade de acesso a conteúdos temos, mais mediana ou ruim é sua qualidade.

Assim, nosso futuro será pautado por indivíduos que não têm referências, ou que possuem referências de qualidade mediana ou pior.

Nesse contexto, liberdade e qualidade são objetivos conflitantes dentro da internet.

É nosso dever, portanto, funcionar como o “filtro” da internet para crianças e adolescentes.

Sugestão para combater a dependência tecnológica

Recentemente, instalei no meu celular o aplicativo “Quality Time”.

Ele monitora o tempo de uso do smartphone e em que aplicativo você passa mais tempo.

Os resultados são impressionantes porque costumamos nos iludir pensando que não passamos “tanto” tempo online.

Além de auxiliar você a gerenciar o seu tempo, aplicativos assim ajudam a objetivar o olhar.

O simples fato de perceber o que fazemos nos permite criar comportamentos para corrigir essas atividades.


Smartphones são coisas ótimas, maravilhosos pedaços de tecnologia. Mas você deve utilizá-los para aquilo que são bons e depois desprender-se deles. Devem ser uma ferramenta que você utiliza, não uma ferramenta que utiliza você.

Doutora Jean Twenge

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