Esquemas mentais de Jeffrey Young, parte II

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No último post aqui do blog, falamos sobre como Jeffrey Young, renomado psicólogo americano, define os esquemas mentais. Também conversamos sobre as origens dos esquemas e suas implicações.

Se você não conferiu o post anterior, clique aqui para lê-lo. Sua leitura é imprescindível para a compreensão do post de hoje.

A continuação de hoje refere-se aos domínios dos esquemas, também definidos por Jeffrey Young.

Domínios dos esquemas

As crianças, em suma, têm cinco tarefas primárias: conexão e aceitação, autonomia e desempenho, limites realistas, auto-orientação e auto-expressão, espontaneidade e prazer. Quando os pais e o ambiente social são ótimos, as crianças se desenvolvem de maneira sadia em todas as cinco áreas. Entretanto, quando o ambiente parental ou social não é ótimo, a criança pode desenvolver Esquemas Iniciais Desadaptativos em um ou mais desses domínios de esquema. Tais esquemas então persistem por toda a vida e tornam-se princípios organizadores do funcionamento cognitivo, emocional, interpessoal e comportamental do paciente.

Jeffrey Young, 2003. Terapia cognitiva para transtornos de personalidade, p. 25.

O Dr. Young nos apresenta cinco domínios (referentes às cinco tarefas primárias citadas acima), que contém dezoito esquemas. Abaixo, são apresentados tais domínios e seus respectivos esquemas, além de exemplos de pensamentos e a maneira saudável de lidar com o esquema disfuncional.

Domínio de desconexão e rejeição

Esse domínio é ligado ao sentimento de frustração em relação às expectativas de segurança, estabilidade, carinho, empatia, compartilhamento de sentimentos, aceitação e consideração.

Seus esquemas são:

  1. privação emocional;
  2. abandono/instabilidade;
  3. desconfiança/abuso;
  4. isolamento social/alienação;
  5. defectividade/vergonha.

Alguns exemplos de pensamentos disfuncionais encontrados nesse domínio são:

  • “As pessoas se aproximam de mim somente para tirar vantagens.” 
  • “Pessoas que eu amo irão me abandonar ao encontrar alguém melhor do que eu.”

A forma saudável de lidar o domínio é desenvolvendo o sentimento de conexão. A criança (lembre-se que o esquema é moldado na infância!) deve receber cuidados e viver experiências de segurança em relação a seus cuidadores. Também recomenda-se que o ambiente seja sem conflitos constantes e que ela receba a mesma quantidade de atenção que seus irmãos, se tiver. Ainda, deve-se incentivar a socialização com outras crianças para que conecte-se com seus iguais.

Domínio de autonomia e desempenhos prejudicados

Está relacionado ao sentimento de incapacidade, que provém da impossibilidade de se separar de pessoas de forma a alcançar autonomia para sobreviver de modo independente com um bom desempenho.

Esquemas:

  1. fracasso;
  2. dependência/incompetência;
  3. vulnerabilidade a dores e doenças;
  4. emaranhamento/self subdesenvolvido.

Pensamentos encontrados nesse domínio:

  • “Estrago tudo aquilo que faço.”
  • “Nada do que faço é tão bom quanto o que os outros fazem.”

A melhor forma de combater esse domínio é ensinando à criança que ela pode realizar suas atividades de maneira independente e encorajá-la a fazê-lo, mas sempre respeitando suas limitações. Um ótimo exemplo é a tarefa de casa: pede-se à criança que a cumpra sem a ajuda excessiva dos pais. Ademais, dá-se responsabilidades e tarefas próprias a ela para que valide-se.

Domínio de limites prejudicados

Caracteriza-se pela deficiência nos próprios limites, causada pela ausência de responsabilidades e também pela dificuldade de orientação para concretizar um objetivo. Causa prejuízos em relação a respeitar o direito dos outros, a cooperar e a comprometer-se com metas.

Seus esquemas são:

  1. merecimento/grandiosidade;
  2. autocontrole/autodisciplina insuficientes.

Podemos citar como exemplo do domínio os seguintes pensamentos:

  • “Sou especial e, portanto, não preciso passar pelo mesmo que outras pessoas passam.”
  • “Costumo fazer tudo em excesso, mesmo sabendo que isso me prejudica.”

A maneira mais eficaz de evitar o desenvolvimento do domínio é ensinando às crianças limites realistas para que saibam controlar seus impulsos, além de levar em consideração as necessidades e sentimentos alheios. O seu ambiente deve ser sem excesso de permissão: diz-se sim quando possível e não quando necessário.

Domínio de orientação para o outro

Há um foco exagerado nos desejos e sentimentos alheios. Esse foco é causado pela busca por amor e para evitar rejeição. O indivíduo sacrifica suas necessidades de forma a obter aprovação. Suprime sua consciência, sentimentos e suas inclinações naturais.

Os esquemas:

  1. subjugação;
  2. autossacrifício;
  3. busca de aprovação/reconhecimento.

Exemplos de pensamentos:

  • “Agrado aos outros para que me aceitem.”
  • “Não consigo pedir que atendam minhas necessidades.”

Para combater os esquemas, deve-se ensinar e encorajar a criança a expressar suas necessidades e sentimentos, de modo que não tenha medo de punições físicas ou morais ou prejudique sua aceitação.

Domínio de supervigilância e inibição

Tal domínio promove o bloqueio da felicidade, da autoexpressão, do relaxamento e dos relacionamentos íntimos. Essa supressão dos sentimentos e escolhas compromete a saúde! Ainda, existem regras rígidas sobre comportamento ético.

Esquemas do domínio:

  1. inibição emocional;
  2. padrões inflexíveis;
  3. negativismo/pessimismo;
  4. postura punitiva.

Pensamentos:

  • “Há muitas emoções que não expresso.”
  • “Não aceito o segundo lugar. Tenho que ser o melhor em tudo que faço.”

Lida-se com esse domínio estimulando a espontaneidade, priorizando o bem-estar e a felicidade da criança. Além disso, se demonstra à criança que ela é benquista e merece afeição. O carinho oferecido à ela não deve ser recompensa quando atinge um padrão elevado.

Conclusão

Os esquemas disfuncionais fazem com que o indivíduo que os possui desenvolva modos de enfrentamento desadaptativos. Na infância e adolescência, esses modos são adaptativos, ou seja: é possível aprender novas maneiras de lidar com situações ruins. Na vida adulta, no entanto, tornam-se desadaptativos e geram transtornos e prejuízos para a autonomia e desenvolvimento do bem-estar.

Podemos ter como exemplo uma pessoa que lide com o abandono de forma desadaptativa, abusando de álcool. Tal pessoa sente que não tem outra opção além da aprendida anteriormente, na infância. Consequentemente, usa seu mapa cognitivo para lidar com situações desconfortáveis.

O papel da Educação Emocional Positiva

O Programa Educação Emocional Positiva se encaixa aqui como uma possibilidade de atuação na formação dos esquemas para prevenir problemas futuros. Se reduz a intensidade do sofrimento criando bons esquemas mentais através das técnicas de educação emocional.

Também é possível lidar com os esquemas através da terapia cognitiva, que corrige os pensamentos distorcidos do paciente, de forma a promover uma melhoria na saúde mental.

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