Fatores de proteção e risco

Tempo de leitura: 9 minutos

Hoje, quero conversar sobre um assunto de extrema importância: fatores de proteção e de risco em prevenção em saúde mental.

Apresentarei, também, exemplos de cada, além de oportunidades de intervenção, a fim de que você compreenda como se dá a prevenção.

Como já falamos algumas vezes aqui, até pouco tempo, as pesquisas em saúde mental estavam voltadas para o estudo dos transtornos mentais.

Isso nos permitiu compreender melhor esses transtornos; no entanto, induziu o público a associar a saúde mental com esses transtornos mentais, alimentando preconceitos e distanciando as pessoas desse assunto.

Ao expandir o conceito de “saúde mental”, um número muito maior de pessoas passou a considerar a saúde mental de maneira mais consciente.

O que é saúde mental, então?

Primeiramente, precisamos compreender a que se refere o conceito de saúde mental.

Em 2005, a OMS definiu saúde mental na infância e na adolescência como:

A capacidade de se alcançar e se manter em um funcionamento psicossocial e um estado de bem-estar em níveis ótimos. […] Ela auxilia o jovem a perceber, compreender e interpretar o mundo que está a sua volta, a fim de que adaptações ou modificações sejam feitas em caso de necessidade.

World Health Organitzation, 2005

Além disso, definiu transtornos mentais com “a dificuldade que uma criança pode ter de alcançar um nível ótimo de competência e funcionamento”.

Por fim, é importante ressaltar que saúde e transtornos não são condições perfeitamente opostas.

Por que trabalhar prevenção?

Estudos têm demonstrado que as iniciativas de promoção e prevenção têm apresentado resultados promissores.

Esses resultados referem-se à redução de novos casos psiquiátricos, da gravidade dos casos que não puderam ser evitados e, além disso, à redução de recaídas de pessoas em tratamento. 

Dessa maneira, dentre os diversos pontos positivos das abordagens preventivas e precoces, podemos incluir:

  • beneficiam a todos, pois partem do princípio de que todos temos saúde mental e de que esta é um aspecto de que deve ser cultivado por qualquer pessoa e não só por aqueles em maior risco de desenvolver um transtorno.
  • como o conhecimento atual é de que a grande maioria dos transtornos mentais tem início na juventude, intervenções precoces são estratégicas ao favorecer a identificação precoce de problemas e transtornos.
  • ao contemplar estágios iniciais do desenvolvimento (e de potenciais transtornos), intervenções precoces podem ser bastante efetivas mesmo com estratégias “mais simples” (como mudança de hábitos, orientações aos pais, etc).

Assim, a prevenção trabalha na redução de fatores de risco e no desenvolvimento de fatores de proteção.

O que são fatores de risco?

Fatores de risco são ameaças à saúde de uma pessoa.

Dessa forma, eles podem aumentar as chances de desenvolver um transtorno e também podem piorar o quadro de alguém que já tem um transtorno.

Ainda, fatores de risco podem ser:

  • modificáveis (a redução do número de armas de fogo em casa, na prevenção ao suicídio, por exemplo);
  • não modificáveis (por exemplo, a presença de risco genético para um transtorno). 

No entanto, um fator de risco não tem o mesmo impacto para todas as pessoas.

O que são fatores de proteção?

Fatores protetores são fatores que fortalecem aspectos saudáveis do indivíduo.

Eles podem ser:

  • ambientais, como bom convívio familiar ou bom desempenho escolar;
  • competências pessoais, como autoestima positiva e habilidades de socialização.

Acredita-se que um dos fatores protetores mais importantes para uma pessoa é a estimulação dos pais durante os primeiros anos do indivíduo, pois como já falamos aqui anteriormente, a estrutura da nossa personalidade é iniciada na infância.

De forma resumida, portanto, o conjunto de fatores de risco interagindo com o conjunto de fatores protetores disponíveis resulta em maior ou menor probabilidade de uma pessoa desenvolver um transtorno mental.

A prevenção de transtornos mentais é um conjunto de estratégias que busca impedir que um transtorno mental se instale ou, ao menos, que busca reduzir o impacto desses transtornos na vida de uma pessoa.

Suas ações basicamente reduzem fatores de risco associados aos transtornos mentais.

Abaixo, alguns exemplos de fatores de proteção e de risco.

Tabela de fatores de risco e de fatores de proteção

Contexto Fatores de risco Fatores de proteção
IndividualProblemas na gestação ou durante o parto;Genética familiar;
Má nutrição;
Inteligência abaixo da média;
Problemas de comunicação;
Temperamento difícil;
Poucas habilidades sociais, isolamento;
Problemas físicos, dor crônica;
Insônia;
Acesso a drogas
Desenvolvimento normal; 
Bons recursos de inteligência; 
Senso de humor;
Capacidade de autocontrole; 
Autoestima positiva;
Habilidade de enfrentar desafios;
Autonomia adequada para a idade;
Habilidade de aprender com as experiências;
Comportamento pró-social;
Prática de exercícios físicos
FamiliarConflito familiar;
Maus-tratos e traumas;
Familiar com problema mental;
Morte de um familiar;
Pouca disciplina na família;
Falta de rotina e maus hábitos;
Pais desatentos;
Divórcio
Contato mãe-bebê satisfatório;
Convivência familiar positiva;
Estímulo à expressão de sentimentos;
Pais que estimulam cognitivamente seus filhos, envolvidos com a escola; 
Regras familiares claras e consistentes; 
Pais atentos aos hábitos dos filhos;
Pais que acreditam no sucesso dos filhos
EscolarFracasso escolar;
Bullying;
Ambiente escolar que expõe a criança a riscos
Escola que estimula a sensação de pertencimento;
Escola que reconhece o esforço do aluno;
Escola que estimula os bons hábitos
ComunitárioPobreza;
Violência;
Discriminação;
Condições de moradia ruins;
Amigos que não reforçam bons hábitos e valores
Oportunidades de lazer (esportes, dança, religião, etc);
Segurança na comunidade;
Jovem recebe suporte de três ou mais adultos, fora os pais;
Jovem se sente valorizado na comunidade

Promoção de fatores de proteção com a Psicologia Positiva

Como falamos anteriormente, estudos já apontam que saúde mental não é ausência de doença mental.

Saúde mental é um estado de bem-estar, no qual as emoções negativas existem em escala menor.

Além disso, o indivíduo também possui capacidade para utilizar suas capacidades plenamente e conseguir lidar com o estresse através de repertórios construtivos.

Assim, aquele que possui saúde emocional contribui de modo construtivo e produtivo na comunidade.

Isso se dá porque as relações pessoais estão completamente conectadas ao bem-estar.

Ademais… as emoções positivas ajudam o cérebro a sedimentar conhecimento.

Quando utilizamos diversos canais para o aprendizado, principalmente aqueles que promovem a interação, nosso cérebro aprende de forma mais efetiva.

Tudo isso protege a pessoa de sofrer prejuízos mentais futuros.

Intervenções para desenvolver fatores de proteção e reduzir fatores de risco

  1. As ações preventivas mais precoces são as que têm enfoque na concepção, voltadas para a redução das gestações indesejadas, por estas representarem situações de risco para a saúde mental tanto da mãe quanto do filho.
  2. Após a concepção, ações de cuidado pré-natal – principalmente de reforço nutricional à dupla mãe-bebê – têm sido muito bem-sucedidas. Programas que utilizaram esse tipo de metodologia proporcionaram, entre uma série de benefícios, melhora no rendimento escolar dessas crianças e, como melhor rendimento escolar é um dos fatores de proteção para a saúde mental, infere-se que esse tipo de iniciativa tenha alto poder de prevenção.
  3. Visitas domiciliares de aconselhamento para gestantes ou mães de crianças até 3 anos com a finalidade de melhorar o vínculo mãe-bebê têm apresentado grande impacto para a saúde mental de ambos. Dá-se orientações sobre como cuidar e brincar com a criança, técnicas de manejo e escuta à gestante. As vantagens desse tipo de programa são duradouras: um estudo demonstrou que a redução dos problemas de conduta manteve-se mesmo após esses indivíduos completarem 15 anos.
  4. Programas de treinamento de habilidades de pais que estimulam a interação entre pais e seus filhos têm demonstrado melhorar a capacidade da criança de resolver seus problemas, aprimorar suas habilidades sociais e reduzir problemas de comportamento na escola e em casa. 
  5. Nos primeiros anos da fase escolar, intervenções que estimulem o desenvolvimento acadêmico e de habilidades sociais e emocionais são as mais estudadas.
  6. Já na adolescência, intervenções mais direcionadas a questões específicas parecem ser apropriadas (por exemplo, programas que busquem prevenir uso de drogas ou episódios de comportamento sexual de risco).

Muitas dessas intervenções preventivas têm sido integradas com sucesso em ambientes escolares, inclusive em países em desenvolvimento.

Quem pratica prevenção?

A prevenção de problemas de saúde mental, hoje em dia, é pensada da mesma forma que a prevenção de doenças físicas, e, nesse contexto, as escolas têm um papel fundamental.

Já falamos sobre o papel do educador na prevenção em saúde mental aqui.

Porém, para que isso aconteça, é necessário que se desenvolva uma linguagem comum sobre saúde mental a fim de que profissionais da educação e da saúde, famílias e as pessoas com problemas possam se comunicar melhor.

Estudos recentes vêm demonstrando que essas estratégias, dentro das escolas, diminuem o estigma, aumentam a eficiência do professor e melhoram o rendimento acadêmico dos alunos e que, portanto, deveriam ser tratadas como prioridade no que tange ao cuidado com crianças e adolescentes.

Fonte: Gustavo Estanislau & Rodrigo Affonseca, 2014. Saúde Mental na Escola: O que os educadores devem saber, p. 37-49.

1 comentário


  1. Diante do contexto em que estamos vivenciando , falar de saúde mental é deveras importante!

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