Mitos e verdades do suicídio

Tempo de leitura: 7 minutos

Hoje, durante o Setembro Amarelo, quero trazer para você os mitos e verdades a respeito do suicídio.

A campanha de prevenção foi iniciada pela Associação Brasileira de Psiquiatria, juntamente com o Conselho Federal de Medicina e o Centro de Valorização à Vida.

A campanha tem como objetivo levar informações sobre prevenção, porque suicídio pode sim, ser evitado.

Por isso, decidi trazer este post: para informar tanto o profissional quanto o público leigo a respeito do tema.

Precisamos compreender melhor para que possamos ajudar.

O suicídio é um ato definitivo para um problema passageiro.

Sabemos que a cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio.

Se também sabemos que isso pode ser evitado, não é nosso papel como profissionais da saúde e também como cidadãos evitar?

Suicídio no Brasil

Atualmente, existem 12 mil relatos de casos de suicídio por ano no nosso país, embora acredite-se que o número seja maior.

Isso se dá porque existem muitos casos subnotificados.

Por exemplo: um jovem que tenha decidido tirar a própria vida sai de carro e colide propositalmente em uma árvore.

Essa morte será notificada como acidente de trânsito, apesar de ter sido um suicídio.

Aqui no Brasil, também, sabe-se que cerca de 96% dos suicídios está relacionado com transtornos mentais, sendo os mais comuns depressão, transtorno bipolar e abuso de substâncias.

É interessante ressaltar, ainda, que dentre esses 96%, 50 a 60% nunca consultou com um profissional da saúde mental, mesmo havendo a associação com o transtorno mental.

Isso quer dizer que mais da metade das pessoas com transtorno cometeram suicídio sem nunca procurar ajuda.

No entanto, um dado chama a atenção: ainda dentre os 96%, 80% dessas pessoas consultou com um médico no mês anterior ao ato.

Isso aponta, mais do que nunca, como precisamos ter ações para instrumentalizar outros profissionais para que compreendam os sinais.

Devemos ter em mente que, sendo profissionais da saúde mental, já trabalhamos bastante com esses assuntos.

Dessa forma, precisamos treinar outros olhares.

Mitos e verdades

O senso comum geralmente atrapalha muito, principalmente no caso do suicídio.

Dessa maneira, trago evidências (pois sempre pauto minhas falas em evidências) que apontam os mitos e verdades sobre o ato de tirar a própria vida.

1º mito: é uma decisão individual, temos livre-arbítrio

É importante ter em mente que essas pessoas estão passando por uma depressão grave.

Essa doença altera radicalmente o modo de pensar da pessoa.

Dessa forma, ela não está pensando corretamente, pois a depressão altera o modo de processar a informação e a percepção.

Assim, criando oportunidades para que a pessoa consiga o tratamento adequado, evitamos o suicídio.

Nesse contexto, precisamos facilitar que as pessoas cheguem a um profissional da saúde mental.

Você quer ajudar alguém?

Perceba e oriente outros a perceberem comportamentos estranhos em outras pessoas.

Se você ouve seu amigo falando constantemente que “queria que tudo acabasse”, você não ignora.

Você não diz “deixa de falar besteira, não pensa nisso” a um claro pedido de ajuda.

Você acolhe, pois esse apoio é fundamental para o tratamento da doença.

“Tá pesado mesmo, não é? Conheço uma psicóloga, um psiquiatra… Quer que eu marque uma consulta para você? Quer que eu vá junto? Você entra e eu espero na recepção… podemos ver alguém que atenda online ou perto da sua casa”.

Mas e se a pessoa não aceitar ir?

Se ela tivesse quebrado o braço, você perguntaria se ela aceitaria ir a um hospital?

2º mito: é só para chamar atenção

Um dos mitos mais famosos.

Essa fala é completamente desrespeitosa com a dor alheia.

Você simplesmente interpreta que a pessoa está querendo chamar atenção sem pensar na dor e no desespero que ela está sentindo.

Como já falamos aqui no ano passado, suicidas dão sinais, tanto verbais quanto comportamentais.

Um paradoxo é que esses sinais são parte da ambivalência.

Isso significa que, ao mesmo tempo que desejam acabar com a dor, gostariam de ajuda ou uma intervenção.

3º mito: queria se matar, mas mudou de ideia

O que acontece nesses casos em que a pessoa parece mudar seu comportamento a respeito do suicídio é que ela já está decidida.

Na realidade, ela está planejando a maneira de tirar a própria vida; está resolvendo pendências e se despedindo.

Nesses casos, deve-se ter ainda mais atenção para fazer com que a pessoa procure ajuda.

4º mito: quando sobrevive à tentativa, o perigo passou

Esse é o maior fator de risco para o suicídio, além deste ser o período mais perigoso.

Isso porque a pessoa ainda tem pensamentos suicidas e ainda tem a energia para cometer o ato.

Nesse período, a atenção deve ser triplicada e não se deve deixar a pessoa sozinha em momento algum.

O perigo passa apenas quando a pessoa está tratando de seu transtorno mental.

5º mito: falar sobre suicídio aumenta o risco

De novo, o senso comum atrapalha muito às vezes.

Devemos, sim, falar sobre suicídio, porque diminui a angústia, tensão, a pressão e faz com que a pessoa que está pensando nisso se sinta acolhida.

Além disso, devemos falar sobre o assunto para instruir as pessoas, criar espaços de escuta, focar a atenção nos sinais de alerta…

Ainda, temos um serviço lindo chamado Centro de Valorização à Vida (188), no qual existem voluntários 24h disponíveis para ouvir o que a pessoa tem a dizer, realizar apoio emocional e prevenir o suicídio.

6º mito: é falta de Deus

Ouvimos bastante que a ideação suicida e o suicídio em si estão relacionados à forças do mal.

Não é isso que acontece.

Ideação suicida e suicídio estão relacionados à depressão e transtornos mentais, e é importante lembrar que isso tem tratamento.

Quando você afirma que o mito, a pessoa sente-se pior.

Ela está expressando sua dor, pedindo ajuda e recebe uma acusação em troca, como se ela fosse culpada de sua doença.

Fatores de risco e proteção

Vamos rapidamente abordar os principais fatores de risco e de proteção com relação ao suicídio.

Primeiro, destaco os sinais vermelhos: tentativa prévia e transtorno mental.

Fatores de risco

  • Tentativa prévia;
  • Transtorno mental;
  • Desesperança;
  • Desespero;
  • Desamparo;
  • Impulsividade;
  • Abuso de substâncias.

Em termos de gênero, é importante dizer que as mulheres lideram as estatísticas em tentativa de suicídio.

No entanto, os homens lideram as estatísticas de suicídio em si.

Isso se dá porque seus métodos normalmente são mais agressivos, não passíveis de socorro.

Fatores de proteção

  • Apoio social: suporte familiar, amigos, conexões positivas;
  • Autoestima: vivenciar a autoeficácia e não se comparar com outras pessoas;
  • Espiritualidade: a crença em algo maior ou a crença que fazemos parte de um todo faz com que a pessoa tente tornar-se melhor;
  • Sentido: ter uma vida com sentido e pautar suas ações nele;
  • Habilidades sociais: resolução de problemas, assertividade…

E se eu desconfiar que alguém pretende tirar a própria vida?

Finalmente, reforço: se alguém pede ajuda a você, direta ou indiretamente, escute, acolha e encaminhe a um profissional da saúde mental.

Uma maneira de fazer isso é através do próprio Facebook ou Instagram: nos três pontinhos que aparecem ao lado de cada publicação, é possível denunciar por suicídio ou automutilação.

Assim, a própria rede social entra em contato com a pessoa para certificar-se que está tudo bem.

2 Comentários


  1. Conteúdo muito importante para agregar aos meus conhecimentos. Sou psicóloga /professora na Academia de Polícia Civil de São Paulo e estamos com Grupo de Prevenção de Suicídio e Qualidade de Vida para os policiais.
    Estamos em construção de um Seminário que acontecerá on line nos dias 29 e 30 sobre o tema.
    Grata

    Responder

    1. Conteúdo muito importante para agregar aos meus conhecimentos. Sou psicóloga /professora na Academia de Polícia Civil de São Paulo e estamos com Grupo de Prevenção de Suicídio e Qualidade de Vida para os policiais.
      Estamos em construção de um Seminário que acontecerá on line nos dias 29 e 30 sobre o tema.
      Grata

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