O amor para a ciência

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Vamos começar o ano falando de amor?

Dentre as maneiras pelas quais uma pessoa pode se relacionar com a outra, talvez a mais marcante e profunda seja o amor.

No entanto, muitas vezes, o senso comum acaba atrapalhando aquilo que entendemos como amor.

Se você perguntar para cinco pessoas o que significa o amor para elas, você terá 5 respostas diferentes.

Ele pode trazer bem-estar, felicidade e as melhores emoções da vida com intensidade.

Na história da humanidade, muito se refletiu sore o amor no senso comum, mas há pouco tempo tem-se percebido as vantagens de um olhar científico, com maior sustentação das conclusões sobre o fenômeno.

É aqui que entra a Psicologia Positiva.

O amor pela visão dos estudiosos

A seguir, quero compartilhar algumas teorias a respeito dessa emoção positiva.

Shaver, Schwartz, Kirson e O’Connor (1987) criaram um modelo para o sistema das emoções por meio de análise Cluster.

O modelo estabelece uma hierarquia entre as emoções.

Elas são divididas em positivas e negativas.

Dentre as emoções positivas, foram descobertas o amor e a alegria, que podem ser considerados atributos da emoção.

Cada um desses atributos tem diversas dimensões, mas as que se referem ao amor possuem três grandes grupos. 

O amor é um atributo inerente ao sistema das emoções.

Ele deve ser diferente de outros atributos, ou seja, o que é amor não deve ser alegria, raiva, tristeza ou medo.

Embora as outras emoções estejam associadas ao amor, conceitualmente se tratam de emoções diferentes.

Behaviorismo

Skinner, em 1991, salientou que o amor é um reforço mútuo de comportamentos.

O autor retoma três palavras gregas, afirmando que Eros não seriam necessariamente os reforços sexualizados, mas aqueles que são úteis para a seleção natural (por exemplo, o amor de uma mãe com um filho).

Philia se traduz no amor por objetos não humanos, como o amor por música, arte, por lugares ou pelo saber.

É um tipo de reforço não diretamente vinculado à reprodução ou às necessidades básicas, mas ao processo de condicionamento operante.

Por fim, Agape se refere à inversão da direção dos reforços, ou seja, quando nós somos reforçados pelo fato de estar reforçando o comportamento de outra pessoa.

Amar e gostar

Esses são os termos ressaltados na literatura os estudos de Rubin (1970).

O pioneirismo do autor se deu tanto pela criação de uma medida psicométrica para o amor quanto pela operacionalização de uma teoria que possui os mesmos elementos que a maioria das outras teorias, o amor e o gostar.

Amar se refere à atração física, predisposição para ajudar, desejar compartilhar emoções e experiências e ao sentimento de exclusividade e absorção.

Enquanto gostar está relacionado com as relações interpessoais, e inclui sentimentos como o respeito, a confiança e a percepção de que a pessoa amada tem objetivos semelhantes aos seus próprios.

Embora amar e gostar sejam conceitos distintos, não há uma clara separação entre ambos.

Limerência

A palavra amor apresenta uma dificuldade semântica pelo fato de ter muitos significados distintos.

Assim, Tennov (1979) cunhou o termo limerência, que designaria o estado de “estar apaixonado”.

O estado de limerência pode ser descrito por pensamentos no objeto desse desejo apaixonado, dependência de suas ações, medo de rejeição, timidez na presença da pessoa, sentimentos fortes que deixam outros afazeres em segundo plano e um estado de euforia quando ocorre a expectativa de ser correspondido.

As pessoas são incapazes de ser limerentes por mais de um objeto.

Amor-paixão e Amor-companheiro

De maneira semelhante a Rubin, Hatfield e Walster (1983) mencionaram que o amor pode aparecer na forma de amor paixão e amor companheiro.

O companheirismo traduz-se numa emoção calma, de afeição, amizade.

A diferença entre gostar e amar está apenas na intensidade com que estas emoções são sentidas.

O que faz as pessoas terem afeição ou aversão por outras são leis do reforço.

O amor-paixão, que foi mais estudado por Hatfield, é um estado desenfreado de emoção, uma confusão de sentimentos: carinho e sexualidade, alegria e dor, ansiedade e alívio, altruísmo e ciúmes.

Assim, pode-se estabelecer um paralelo do amor-paixão com o conceito de limerência.

Teoria dos clusters

Davis (1985) apresentou uma teoria semelhante à de Rubin e à de Hatfield e Walster.

De acordo com ela, existem as relações de amizade e de amor.

A amizade é caracterizada pelo prazer na companhia do outro, aceitação do outro como ele é, pela verdade, respeito, ajuda mútua, entendimento, espontaneidade e confiança na relação.

A inovação dessa teoria está na descrição do sentimento que, além das características da amizade, envolve os clusters (conglomerados) da paixão e do cuidado.

A paixão envolve a fascinação, o desejo sexual e o desejo de que o relacionamento seja exclusivo. 

O cuidado refere-se aos sentimentos de sempre procurar defender o parceiro e de fazer sacrifícios para deixar o outro feliz. 

Teoria triangular

Sternberg (1986) trata o amor simplesmente como uma conjunção de três elementos, que metaforicamente são vértices de um triangulo.

A teoria decompõe o sentimento nos vértices Intimidade, Paixão e Decisão/compromisso.

Espera-se que os três vértices combinados expliquem todo o fenômeno do amor.

A intimidade é caracterizada pelo sentimento de proximidade e a conexão no relacionamento.

A paixão é o componente responsável pela atração física e sexual, pelo romance e o desejo de estar juntos e pela excitação.

Por fim, a decisão/compromisso se refere à certeza de amar e ser amado e à vontade de manter o relacionamento em longo prazo.

Teoria das cores

Lee (1973) não avalia a intensidade do sentimento, mas maneiras ou estilos de sentir.

Ela faz a analogia dos estilos de amar com um disco de cores, no qual existem três cores primárias que dão origem a três cores secundárias.

Os três estilos “primários” foram denominados Eros (vermelho), Storge (amarelo) e Ludus (azul).

Já os três estilos secundários são Agape (laranja), Mania (roxo) e Pragma (verde).

Cada estilo secundário é composto por elementos dos dois estilos primários adjacentes no disco.

O modelo prevê seis tipos de amor, que resumidamente são:

  • Eros (atração física e romantismo);
  • Storge (amor calmo, composto de companheirismo e amizade);
  • Ludus (promiscuidade, tratam o sentimento como um jogo);
  • Agape (altruísmo, forte preocupação com o parceiro);
  • Mania (amor intenso, sofrimento por amor e ciúme);
  • Pragma (busca por parceiro com características desejáveis, deixando o sentimento em segundo plano).

Dificilmente será encontrado alguém que possua somente um estilo de amneira pura.

O mais frequente é ter-se pessoas com características fortes em alguns tipos e baixas em outros. Essas características dependem do perfil cognitivo e da personalidade de cada indivíduo. 

Conclusões

Existe uma abundância de teorias sobre o amor, e a maioria delas tem sustentação empírica para suas afirmações.

Boa parte das teorias psicológicas possui pelo menos um elemento da atração física e o outro de afeto entre amigos.

O amor, além de constantemente estar no imaginário da pessoas comuns, também pode ser investigado por cientistas.

Dessa forma, ainda há necessidade de evolução nessas teorias e de estudos que coloquem essas teorias frente à verificação.

No entanto, o avanço das últimas décadas foi enorme, graças ao movimento da Psicologia Positiva.

Fonte

Psicologia Positiva: teoria, pesquisa e intervenção. Organizadores: Bruna Larissa Seibel, Michele Polleto e Silvia Helena Koller. Pág. 135-143.

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