Prevalência de transtornos

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Hoje, quero trazer dados epidemiológicos sobre a prevalência de transtornos mentais em crianças e adolescentes.

Nesse contexto, reforço o quanto é importante trabalharmos a prevenção e promoção de saúde mental desde cedo.

Primeiramente, precisamos saber que há diversidade nas taxas de transtornos mentais: a prevalência geral varia entre 10 e 20%.

No entanto, essa prevalência aumenta à medida que a criança cresce.

Além disso, há diferenças na distribuição das psicopatologias por gênero e faixa etária.

Ainda, os transtornos mentais na infância podem ou não persistir na adolescência e vida adulta.

O que os estudos dizem sobre a prevalência

Como falei anteriormente, em geral, as taxas de prevalência de transtornos se situam na faixa de 10 a 20%.

Uma revisão de estudos epidemiológicos internacionais apontou mediana de 12% de crianças e adolescentes com algum transtorno mental envolvendo prejuízo funcional.

Já outra pesquisa feita em Taubaté (SP), em 2004, encontrou prevalência de 12,7%.

Ainda, um estudo mais recente, realizado em quatro cidades de quatro regiões do Brasil detectou prevalência de 13,1% entre 6 a 16 anos.

Por fim, um estudo longitudinal realizado nas cidades de São Paulo e Porto Alegre encontrou prevalência de 19,9%.

Por que os números variam?

Tais diferenças podem ser explicadas pelos diferentes métodos usados para abordar o paciente e colher informações.

Além disso, a discrepância está ligada à fonte: falta concordância no relato de pais, professores e dos próprios pacientes.

Prevalência por faixa etária e gênero

Quando divididas por faixa etária, as taxas medianas tendem a aumentar com o avanço da idade, situando-se em torno de:

  • 8% na faixa pré-escolar (1 a 5 anos);
  • 12% em pré-adolescentes (6 a 12 anos);
  • 15% em adolescentes (acima de 13 anos).

Também há diferença na distribuição entre os gêneros.

Antes da puberdade, quadros psicopatológicos são mais identificados no sexo masculino, enquanto após o sexo feminino predomina.

Os transtornos externalizantes (hiperatividade, transtornos de conduta/oposição) e o espectro autista são mais comuns em meninos.

Enquanto isso, os internalizantes (quadros ansiosos e depressivos) são mais prevalentes entre as meninas.

Deficiência intelectual, autismo, hiperatividade e déficit de atenção, transtornos de vinculação, ansiedade de separação, fobias específicas e transtornos de linguagem e leitura surgem durante a infância.

Já transtornos do humor, esquizofrenia, transtornos alimentares, abuso de substâncias e transtorno de pânico geralmente aparecem na adolescência.

Fatores de risco

É importante identificarmos fatores de proteção e de risco para que saibamos como pautar nossas intervenções.

Estudos brasileiros identificaram alguns fatores e populações de risco, como:

  • condições socioeconômicas desfavoráveis (baixa renda, analfabetismo, desemprego;
  • más condições de habitação e acesso precário à saúde e educação);
  • punições físicas e outros maus-tratos corporais;
  • exposição à discórdia no interior da família;
  • filhos de mulheres com problemas psiquiátricos.

Ainda, estudos nacionais e internacionais têm listado outros fatores:

  • psicossociais, como criminalidade paterna;
  • fatores biológicos, como lesões e infecções do sistema nervoso central, desnutrição e baixo peso ao nascer;
  • fatores ambientais,como escolas inadequadas e comunidades desorganizadas;
  • eventos de vida estressantes, como morte na família ou divórcio dos pais.

Não é possível prever as consequências da interação entre esses fatores; no entanto, sua presença deve ser levada em consideração.

Ao que tudo indica, fatores adversos duradouros e que se repetem com frequência têm maior impacto na produção de psicopatologias.

Além disso, a existência de diversos fatores concomitantes é mais relevante que a presença de fatores de risco isolados, mesmo que intensos.

Fatores de proteção

Resiliência é um conceito que tem sido proposto para responder à seguinte pergunta: por que algumas pessoas, na presença das mesmas situações adversas, adoecem mentalmente, e outras não?

Além da subjetividade humana, a pesquisa procura fatores comuns que ajudem a identificar crianças vulneráveis e resistentes.

Essas diferenças são caracterizadas em três dimensões:

  1. Características pessoais: crianças de temperamento fácil e com habilidades intelectuais medianas ou boas;
  2. Características familiares: afetividade e intimidade entre a criança e pelo menos um adulto da família e uma vida doméstica organizada;
  3. Redes sociais de suporte: relações de pertencimento dos pais ou dos filhos a grupos e instituições que ofereçam sustentação social e comunitária.

A presença de um ou mais desses fatores de proteção costuma estar associada à melhor resposta da criança e do adolescente a situações de risco.

Outras ações de sucesso no campo da resiliência dependem da própria família.

Um pouco mais sobre resiliência

Richard Davidson, diretor do Laboratório de Imagens Cerebrais Funcionais e Comportamento da Universidade de Winsconsin, define resiliência como a velocidade com a qual o indivíduo se recupera de uma adversidade, encontrando tenacidade e determinação para seguir em frente.

Isso é resultado de uma forte ativação do córtex pré-frontal esquerdo e de uma intensa conectividade entre esse córtex e a amígdala.

Os sinais enviados do córtex pré-frontal são os determinantes para a recuperação de uma experiência negativa.

O que pouca gente sabe é que a resiliência é dirigida por circuitos cerebrais específicos que são capazes de ser identificados por meio de métodos laboratoriais.

Mas o mais bacana é que esses circuitos podem ser intencionalmente ativados.

Atividades para estimular a resiliência

Atenção plena: exercícios em que focamos a atenção na respiração, a fim de estarmos plenamente presentes naquele momento, observando nossos pensamentos sem julgamentos, críticas e preconceitos, como observadores.

Sempre que a atenção se desviar do momento presente, de maneira gentil, com algumas respirações, a trazemos de volta para o presente.

Nossa meta é fortalecer as conexões neurais da resiliência, e, para isso, é necessária uma ação intencional.

Aprendizagem vicariante: esse termo foi descrito por Albert Bandura, psicólogo canadense, autor da psicologia social cognitiva.

Refere-se à capacidade do indivíduo de aprender por meio da observação do comportamento dos outros e suas consequências.

Ou seja, eu não preciso passar por uma situação para aprender sobre ela; posso aprender ao observar o outro.

Para desenvolver a aprendizagem vicariante, entro no próximo item: o cultivo de amizade.

Cultivo de amizades: estar entre pares promove um sentimento de pertença e desperta acolhimento, emoções positivas e uma maior ativação do lobo frontal esquerdo.

O cultivo da amizade também pode ser uma fonte da aprendizagem vicariante.

Aprender com um amigo o modo como ele lidou com determinadas situações é muito importante.

Prognóstico e persistência

Dados sobre a persistência dos quadros psicopatológicos infantis e juvenis têm mostrado que os transtornos externalizantes tendem a ser mais persistentes que os transtornos emocionais ou internalizantes.

Transtornos de desenvolvimento têm como característica a persistência de limitações iniciadas precocemente.

Ainda, crianças com poucos sintomas mas marcantes dificuldades em sua vida têm pior evolução que as crianças com quadros psicopatológicos completos, mas com poucas limitações.

Por exemplo: uma pesquisa da Nova Zelândia mostrou que 75% das pessoas de 21 anos com algum diagnóstico psiquiátrico tinham apresentado algum problema psiquiátrico quando foram examinadas entre 11 e 18 anos.

De um modo geral, até 50% dos transtornos mentais adultos tiveram seu início na adolescência.

Fonte

Livro Saúde mental da criança e do adolescente, organizado por Adriana Rocha Brito e Anna Tereza Miranda Soares de Moura, p. 30-34.

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