Prevenção em saúde mental na escola

Tempo de leitura: 9 minutos

Hoje, vamos falar sobre um tema de extrema importância: o trabalho da prevenção em saúde mental na escola.

Por que trabalhar isso?

Você sabia que a depressão atinge 10% das pessoas mais jovens?

Nossas crianças também sofrem ainda na infância.

Essa falta de apoio emocional, além de criar um adulto emocionalmente abalado, pode dar origem a diversos problemas, tais como:

  • violência;
  • bullying;
  • anorexia;
  • abuso de drogas;
  • automutilação;
  • gravidez na adolescência;
  • transtornos mentais e muitos outros.

O indivíduo também pode acabar abandonando a escola, seja pelos motivos citados anteriormente ou pela falta de motivação e condições sociais.

Por isso, é muito importante trabalhar as competências socioemocionais e habilidades para o bem-estar, que funcionam como prevenção em saúde mental na escola.

A instituição de ensino é super importante e influencia muito na informação do indivíduo, já que ele passa uma grande parte da vida dentro dela.

O papel do professor

Considerando que o educador tem importante papel no processo de aprendizagem, é importante que ele esteja atento para identificar qualquer problema que possa comprometer o aprendizado.

Os professores têm uma condição privilegiada de observação de comportamento das crianças, pois as observam em várias situações.

Além disso, o fato de os professores terem experiência com mais crianças possibilita a distinção entre os comportamentos esperados e comportamentos atípicos.

Por isso, os professores têm a oportunidade de identificar problemas precocemente, mesmo antes da família.

Essa possibilidade de identificar os sintomas de forma precoce e encaminhar a criança para a avaliação transforma toda a equipe técnica da escola em figuras fundamentais no processo de diagnóstico e tratamento.

Problema ou transtorno?

Cada pessoa reage a um evento estressor de maneira individual, e, dependendo de uma série de fatores, a resposta pode ser acompanhada, ou não, de um problema mental ou de um transtorno mental.

Problemas mentais (condições intermediárias, mais amenos do que transtornos mentais) podem surgir em dois tipos de ocasião.

Primeiro, diante de situações em que a tensão mental é muito intensa e a adaptação se torna difícil (como em alguns casos de divórcio dos pais, perda de um ente querido ou rompimento de uma relação afetiva).

Segundo, quando pequenas falhas no desenvolvimento psicológico, social ou cognitivo (acompanhadas ou não por problemas comportamentais) acabam prejudicando sua capacidade adaptativa.

Nesses casos, eventos corriqueiros (como fazer uma tarefa ou brincar com os amigos) podem se tornar grandes desafios.

Nessas situações, passageiras e sem grande prejuízo, amigos, família e outras figuras de referência podem ajudar.

Porém, nas situações em que os prejuízos são mais significativos, bem como na falta de figuras de suporte, o acompanhamento de um profissional da saúde pode ser adequado. 

Trastornos mentais

Enquanto isso, os transtornos mentais são condições muito variáveis.

Por exemplo, algumas pessoas podem vivenciar um transtorno mental e mesmo assim continuar levando sua vida de maneira produtiva.

Exemplos são casos de transtornos de ansiedade menos intensos ou em casos de transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) leves, nos quais a pessoa aprende ou é orientada a se adaptar aos sintomas.

No entanto, há, também, alguns transtornos gravemente incapacitantes, que geram prejuízos enormes ao indivíduo, à família e à comunidade.

Os transtornos mentais ocorrem pela interação de fatores individuais (biológicos, genéticos, psicológicos), sociais (condições financeiras, de moradia, rede de suporte) e ambientais (influência dos pais, qualidade dos amigos e da escola) e nem sempre precisam ser desencadeados por uma situação específica.

Também é importante ressaltar que, muitas vezes, os problemas ou transtornos mentais surgem sem que exista um evento estressor.

Isso ocorre porque os transtornos mentais são causados por uma complexa interação de fatores. 

Durante um transtorno mental, são observados sinais e sintomas que refletem alterações no funcionamento do corpo e do cérebro, tais como:

  • cognição
  • sensopercepção (vinculada ao domínio dos cinco sentidos [audição, olfato, paladar, tato e visão]) 
  • emoções 
  • sinalização (vinculada ao modo como o cérebro reage ao ambiente)
  • física
  • comportamental

Os transtornos mentais ocasionam falhas adaptativas mais graves do que problemas mentais, e, por isso, frequentemente são caracterizados por prejuízos maiores e mais graves no funcionamento da pessoa.

No caso dos jovens, é comum que o rendimento na escola sofra alterações, assim como o relacionamento com a família e os amigos.

Nos casos em que um transtorno mental se desenvolve, é necessário um diagnóstico e, portanto, a intervenção profissional.

Observações na escola

Os principais problemas percebidos na sala de aula são alterações de comportamento e dificuldade de aprendizagem.

É importante lembrar que essas duas situações se relacionam, já que uma criança que não consegue acompanhar o conteúdo tem maior tendência a ficar dispersa e está mais propensa a desenvolver comportamentos inadequados.

O que observar?

  • Como a criança se relaciona com adultos? Ela é receptiva ao contato com o adulto? É afetuosa? Compreende a hierarquia? Obedece às regras? Procura ajuda quando necessita? 
  • Como a criança se relaciona com outras crianças? Consegue brincar em grupo? Consegue seguir as regras da brincadeira? Tem amigos? Os colegas gostam dela? Ela briga facilmente?
  • Como reage quando é contrariada pelo professor ou por outras crianças?
  • A criança finaliza o trabalho individual em sala de aula? 
  • A criança consegue finalizar o trabalho de sala no prazo estipulado? Consegue finalizar quando lhe é dado tempo extra?
  • Como é o desempenho acadêmico em sala de aula? O nível de acertos é semelhante ao dos colegas de sala?
  • Como é a finalização e a precisão dos trabalhos realizados em casa?
  • Como são as habilidades de organização da criança em relação a seu material, suas anotações e registros de tarefas e das aulas, dos trabalhos entregues e do ambiente de trabalho?
  • Quais situações parecem piorar o desempenho da criança? Quais parecem melhorá-lo? 

Queixas comuns dentro da escola

Agora, trago um fluxograma publicado no livro Saúde Mental na Escola: O que os educadores devem saber, de organização de Gustavo Estanislau e Rodrigo Bressan.

Esse fluxograma aponta as queixas mais comuns no ambiente escolar e os sinais associados a elas.

Os organizadores do livro ressaltam que, para a utilização do fluxograma, o profissional da educação tenha em mente os seguintes pontos:

  • fatores ambientais podem comprometer o desempenho e o comportamento da criança; quanto menor a criança, maior é a influência do ambiente
  • qualquer situação, interna ou externa, que comprometa o funcionamento da criança deve ser abordada logo, pois a infância é uma fase essencial para a formação de padrões intelectuais e emocionais
  • a existência de problemas ambientais não exclui a possibilidade de transtornos, e a coexistência de fatores externos e internos, além de comum, maximiza os prejuízos para a criança
  • crianças com doenças clínicas ou transtornos mentais ficam mais fragilizadas e podem apresentar maior dificuldade em lidar com situações que antes conseguiam enfrentar
Fluxograma de queixas mais comuns para se trabalhar a prevenção em saúde mental na escola

Encaminhando o aluno a uma avaliação

O professor, ao perceber a necessidade de avaliação de saúde mental, deve, de maneira sensível e respeitosa, comunicar aos pais da criança.

Ainda, o profissional da educação deve acolher as preocupações dos pais e da criança e oferecer conforto e suporte.

Em casos mais graves, um encaminhamento para profissionais especializados pode se fazer necessário, e a escola pode auxiliar apontando os serviços disponíveis na região.

Realizando o diagnóstico

O processo diagnóstico pode ser feito por médicos (psiquiatra da infância e adolescência, pediatra ou neuropediatra), com ou sem o auxílio de uma equipe multidisciplinar, tais como neuropsicólogo, psicólogo, psicopedagogo, terapeuta ocupacional e/ou fonoaudiólogo.

A avaliação geralmente é composta por um ou mais dos passos descritos a seguir:

  1. entrevistas com os pais (levantamento de queixas e sintomas e relato sobre o comportamento da criança em casa e em atividades sociais) 
  2. entrevistas com professores (relato sobre o comportamento da criança na escola, levantamento de queixas, sintomas, desempenho escolar, relacionamentos com adultos e crianças)
  3. questionário e escalas de sintomas a serem preenchidos por pais e professores
  4. avaliação/observação da criança no consultório
  5. avaliação neuropsicológica
  6. avaliação psicopedagógica 
  7. avaliação fonoaudiológica

Para auxiliar nesse processo, é importante que o professor preste especial atenção e descreva as atividades e os comportamentos do aluno.

Dar exemplos práticos sobre os comportamentos da criança tanto para os pais quanto para os profissionais da saúde é fundamental.

O que o educador pode fazer além disso?

Por fim, trago algumas atitudes práticas que podem auxiliar nos processos de desenvolvimento de saúde da criança por parte do professor:

  1. Informar
    1. Aborde o tema de saúde mental na escola, pois isso diminui o estigma e estimula a procura espontânea por ajuda quando necessário
    2. Fale sobre situações estressoras e dê oportunidade para que surjam questionamentos e métodos de lidar com elas diferentes dos seus 
  2. Escutar
    1. Quando procurado, mostre-se aberto a ouvir, sem julgamentos
    2. Tenha uma postura acolhedora e respeitosa
  3. Encaminhar
    1. Procure conhecer os serviços de saúde mental da região e saiba quem pode oferecer ajuda
    2. Quando necessário, oriente os pais a buscarem um serviço de saúde mental
  4. Solicitar ajuda sempre que necessário
    1. Profissionais especializados nesses transtornos podem ajudar sempre que preciso.

Fonte

Gustavo Estanislau & Rodrigo Affonseca, 2014. Saúde Mental na Escola: O que os educadores devem saber, p. 25-36.

1 comentário


  1. Excelente conteúdo, muito claro e esclarecedor. Acredito que muitas Escolas, Educadores e Pais não tem este conhecimento. E o quanto é importante e fundamental a Educação emocional Positiva, acaba orientando além do conhecimento. Gratidão Professora Miriam, por este excelente programa! Levando Educação Emocional Positiva para um mundo melhor!

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