Promoção de saúde nas escolas

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Hoje, quero falar sobre um assunto fundamental dos dias atuais: a promoção e prevenção de saúde dentro das escolas.

Já falei anteriormente aqui sobre a necessidade desse trabalho.

Recentemente, a saúde mental de crianças e adolescentes tornou-se protagonista em pautas de escolas, formadores de políticas públicas e da comunidade científica.

Sobretudo na educação, o assunto tem sido muito debatido, aumentando a lista de grandes desafios do setor.

A partir deste ano, é obrigatório que as escolas trabalhem as 10 competências socioemocionais, de acordo com a Base Nacional Comum Curricular.

Essas competências socioemocionais permeiam todos os assuntos que os alunos aprendem dentro dos conteúdos exigidos.

A seguir, as 10 competências socioemocionais:

  1. conhecimento;
  2. pensamento científico, crítico e criativo;
  3. repertório cultural;
  4. comunicação;
  5. cultura digital;
  6. trabalho e projeto de vida;
  7. argumentação;
  8. autoconhecimento e autocuidado;
  9. empatia e cooperação;
  10. responsabilidade e empatia.

Essas habilidades são fundamentais para a construção de uma sociedade mais consciente e educada emocionalmente.

O que é a BNCC e qual seu papel nas escolas?

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) define o conjunto de aprendizagens essenciais a que todos os alunos tem direito na educação básica.

Apesar de ser requerido pelo MEC somente a partir de 2020, o assunto não é novidade.

Nossa Constituição de 1988 destacava a:

educação a serviço de pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho

Na Lei de Diretrizes e Bases de 1996, foi determinado que a União firmasse um pacto federativo para estabelecer competências e diretrizes capazes de orientar os currículos.

Já em 2014, o Plano Nacional da Educação reafirmava a necessidade de estabelecer diretrizes pedagógicas para a Educação Básica e de criar uma Base Nacional que orientasse os currículos de todas as unidades da Federação.

Como falamos anteriormente, até 2020 todas as escolas, particulares ou públicas, devem contemplar as 10 competências socioemocionais em seus currículos.

Diante dessa demanda, faz-se necessário conhecer mais sobre a educação socioemocional.

Segundo CASEL, a educação socioemocional refere-se ao processo de entendimento e manejo das emoções, com empatia e pela tomada de decisão responsável.

Para que isso ocorra, é fundamental a promoção da educação socioemocional nas mais diferentes situações, dentro e fora da escola.

CASEL (2015) aponta que investir em competências socioemocionais beneficia o aluno não apenas no desenvolvimento dessas competências, mas também no desempenho escolar de modo geral e na manutenção de uma sociedade pró-social.

Iniciativas de prevenção e promoção de saúde

No Brasil, a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, e da construção dos Parâmetros Curriculares Nacionais que citamos acima, a abordagem do tema Saúde foi ganhando mais consistência nas escolas.

O tema passou a ser integrado como transversal, permeando o currículo escolar, possibilitando uma abordagem ampla dos aspectos vinculados ao processo de saúde.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais estão em congruência com os princípios de promoção de saúde em escolas indicados pela Organização Mundial da Saúde.

Ou seja: buscam a sustentação da saúde e do aprendizado, além de integrar profissionais de saúde, educação, pais, alunos e membros da comunidade.

Essa prática ajuda a transformar a escola em um lugar saudável e propicio ao bem-estar, ao crescimento e ao desenvolvimento.

Por que trabalhar com prevenção e promoção de saúde mental dentro das escolas?

Você sabia que a depressão atinge 10% das pessoas mais jovens?

Nossas crianças também sofrem ainda na infância.

Essa falta de apoio emocional, além de criar um adulto emocionalmente abalado, pode dar origem a diversos problemas, tais como:

  • violência;
  • bullying;
  • anorexia;
  • abuso de drogas;
  • automutilação;
  • gravidez na adolescência;
  • transtornos mentais e muitos outros.

O indivíduo também pode acabar abandonando a escola, seja pelos motivos citados anteriormente ou pela falta de motivação e condições sociais.

Por isso, é muito importante trabalhar as competências socioemocionais e habilidades para o bem-estar dentro da escola.

A instituição de ensino é super importante e influencia muito na informação do indivíduo, já que ele passa uma grande parte da vida dentro dela.

Princípios das escolas promotoras de saúde

  • Ter visão ampla de todos os aspectos da escola, provendo um ambiente saudável e que favorece a aprendizagem;
  • Dar importância à estética da escola, assim como ao efeito psicológico direto que ela tem sobre professores e alunos;
  • Fundamentar-se em um modelo de saúde que inclua a interação dos aspectos físicos, psíquicos, socioculturais e ambientais;
  • Promover a participação ativa de alunos e alunas;
  • Reconhecer que os conteúdos de saúde devem ser necessariamente incluídos nas diferentes áreas curriculares;
  • Entender que o desenvolvimento da autoestima e da autonomia pessoal é fundamental para a promoção da saúde;
  • Valorizar a promoção da saúde na escola para todos;
  • Ter visão ampla dos serviços de saúde que tenham interface com a escola;
  • Reforçar o desenvolvimento de estilos saudáveis de vida que ofereçam opções viáveis e atraentes para a prática de ações que promovam a saúde;
  • Favorecer a participação ativa dos educadores na elaboração do projeto pedagógico da educação para a saúde;
  • Buscar estabelecer inter-relações na elaboração do projeto escolar.

Qual é o papel dos educadores?

Os educadores tem a árdua – e compensadora – tarefa de atuar no desenvolvimento de seus alunos, não apenas acadêmico, mas também como indivíduos saudáveis.

Os professores atuam no processo “saúde-doença” de seus alunos de diversas maneiras.

Um exemplo é o desenvolver vínculos baseados na afetividade, na empatia, na escuta reflexiva e respeitosa, na consideração pelas qualidades do aluno visando ao fortalecimento de sua autoestima, etc.

Os professores influenciam positivamente quando interagem de forma motivadora e criativa, informando e encorajando nas tomadas de decisão, fomentando a autonomia.

Não se sugere aqui, no entanto, que educadores tenham a responsabilidade de diagnosticar, ou mesmo sejam exigidos a aplicar qualquer tipo de conhecimento que não seja da área da educação.

Porém, considerando que já atuam contemplando os aspectos emocionais, cognitivos e comportamentais de seus alunos, conhecimentos selecionados em saúde mental, baseados principalmente em aspectos de promoção e prevenção, podem ser de grande utilidade ao empoderar a figura do educador.

Orientações aos educadores

  • Reconheça a responsabilidade de formar o aluno como cidadão;
  • Contribua para um clima escolar favorável, priorizando os vínculos;
  • Contribua, por meio do diálogo, com o combate ao estigma dos transtornos. Evite a segregação de alunos problema;
  • Discuta abertamente o assunto “saúde mental” com os alunos;
  • Discuta casos de sua pratica diária com os colegas, para que possa refletir sobre o que fazer diante de situações difíceis apresentadas pelos alunos que interferem na dinâmica em sala de aula, como isolamento social, comportamentos agressivos e violação de regras;
  • Estimule os alunos para que desenvolvam habilidades sociais, como fazer amigos e manter amizades;
  • Mantenha-se atento à identificação precoce de problemas para o devido encaminhamento dos alunos que necessitam de assistência nessas áreas;
  • Construa parcerias com as famílias, para acompanhamento do desenvolvimento das crianças e adolescentes, tanto do ponto de vista emocional como da aprendizagem;
  • Adapte objetivos acadêmicos, conteúdos curriculares, método de ensino e outros assuntos educacionais às necessidades de cada aluno, visando a um maior rendimento escolar;
  • Solicite à diretoria de ensino cursos e material didático na área de saúde mental para complementar seu conhecimento nessa área.

Ainda, perspectivas de abordagem à saúde da OMS (1994) destacam o sistema escolar como o principal núcleo de promoção e prevenção de saúde mental.

Isso se dá porque a escola atua no desenvolvimento dos fatores de proteção e na redução de fatores de risco.

Intersetorialidade

Em alguns países, a organização integrada dos sistemas públicos de saúde e de educação levou à implantação de serviços de saúde mental dentro das escolas.

Nesses locais, a abordagem integrada entre educadores e profissionais da saúde mental tem beneficiado a comunidade com ambientes escolares promotores de saúde e com a resolução de problemas menos complicados dentro da própria escola, reduzindo a demanda por serviços especializados.

Infelizmente, no Brasil, a falta de diálogo tem sido pano de fundo para um número crescente de encaminhamentos precipitados para a rede de saúde de muitos jovens com problemas de aprendizagem.

Ao mesmo tempo, existem varias pesquisas mostrando que grande parte das pessoas que desenvolvem um transtorno mental é diagnosticada de forma tardia.

Assim, programas de avaliação/detecção precoce poderiam modificar o curso desses quadros, evitando seu desenvolvimento ou amenizando sua intensidade após instalados.

Nesse sentindo, modelos de psicoeducação e capacitação em saúde mental para educadores podem ser de grande valia.

Um estudo de capacitação sobre saúde mental para professores de ensino fundamental e médio, realizado em uma escola publica paulista por pesquisadores da UNIFESP nos aponta isso.

O estudo mostrou que a intervenção foi efetiva ao auxiliar educadores a identificar problemas emocionais e comportamentais, a fazer encaminhamentos mais assertivos, bem como a discriminar fenômenos da adolescência normal de problemas em que a avaliação seria necessária.

Uma colaboração entre os setores da saúde e da educação poderia alavancar a promoção da saúde mental e do bem-estar.

Além disso, poderia minimizar o fracasso e a evasão escolar, diminuir o preconceito e facilitar o acesso a serviços especializados.

Fontes

Base Nacional Comum Curricular – Competências socioemocionais como fator de proteção à saúde mental e ao bullying. Acesso em https://bit.ly/37gH5HZ.

Gustavo Estanislau & Rodrigo Affonseca, 2014. Saúde Mental na Escola: O que os educadores devem saber, p. 17-21.

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