Distorção cognitiva

Tempo de leitura: 7 minutos

Em um post recente, falamos sobre o que é um esquema mental. Hoje, no entanto, quero trazer para você uma parte importante dele: a distorção cognitiva.

Recapitulando um esquema mental

Primeiramente, vamos recapitular que o esquema mental mais básico que temos é o seguinte: crença nuclear -> pensamento (distorção cognitiva) -> sentimento -> comportamento -> crença nuclear.

Ele é importante para compreendermos que a estrutura da nossa personalidade é iniciada na infância.

Nesse sentido, de acordo com Jeffrey Young, as crianças têm 5 tarefas primárias para o desenvolvimento de uma personalidade saudável.

Assim, quando apresenta esquema mental disfuncional, apresenta também prejuízo nessas 5 áreas.

1) Conexão e aceitação

A criança precisa se sentir conectada com um adulto de segurança e se sentir aceita pelo que ela é, não por condição.

2) Autonomia e desempenho

Criança resolve problema de criança.

É importante deixar que façam coisas que têm competências para desenvolver.

Os adultos costumam impedir que as crianças resolvam seus problemas, tal como realizar a tarefa de casa.

3) Limites realistas

É necessário mostrar um limite realista.

Isso também é amor, porque amor não é permitir que a criança faça tudo.

4) Auto-orientação e auto expressão

Ensinar a perceberem suas emoções e explicá-las para os outros.

Apresente formas adequadas para a criança expressar sua raiva ao objeto causador da raiva, não aos outros.

5) Espontaneidade e lazer

Deixar a criança ser criança.

Quando os pais e o ambiente social são ótimos, a criança se desenvolve de maneira sadia em todas as cinco áreas. Entretanto, quando o ambiente parental ou social não é ótimo, a criança pode desenvolver esquemas iniciais desadaptativos em um ou mais desses domínios do esquema. Tais esquemas, então, persistem por toda vida e tornam-se princípios organizadores do funcionamento cognitivo, emocional, interpessoal e comportamental do indivíduo.

Jeffrey Young

Essa é a importância de cuidarmos da infância: oferecer as tarefas primárias para que o ambiente seja estável emocionalmente, criando crianças mais saudáveis e, por sua vez, adultos mais saudáveis.

Crença nuclear

O foco do esquema mental é a crença nuclear. Crenças nucleares são nossos mapas de mundo – é a nossa maneira de enxergar a realidade.

Elas são tudo aquilo que ouvimos, vimos e vivenciamos na infância e adolescência.

Temos crenças a respeito de nós, do outro, do mundo e do futuro.

As crenças são, também, formadas pelas nossas memórias explícitas e implícitas.

O papel das memórias

Enquanto memórias explícitas são as experiências que conseguimos relatar, as memórias implícitas são as memórias do corpo; estão registradas, mas não sabemos falar a respeito.

São memórias de acontecimentos prévios aos 3 anos de idade.

Um exemplo: um indivíduo é assaltado por alguém de roupa branca.

No momento do assalto, ele se sente impotente, sente raiva e medo. Suas pernas tremem, sua coluna e, por fim, os ombros enrijecem.

A memória explícita lhe permite relatar que um dia foi assaltado por alguém de roupa branca, se sentiu com raiva, medo e impotente e conta suas reações físicas.

Após passar um tempo, o indivíduo não lembra mais dos detalhes do assalto. No entanto, toda vez que alguém de roupa branca se aproxima dele, ele se sente tenso e com medo.

Ele não sabe de onde essas sensações vêm, e, por isso, essa é a memória implícita.

Distorção cognitiva

As distorções cognitivas são hábitos mentais que nos causam problemas ou pioram problemas já existentes.

Ou seja, são pensamentos errados, porque prejudicam nossa visão da realidade e alimentam nossas crenças nucleares.

Na Terapia Cognitiva, acreditamos que existe uma maneira correta de pensar.

O jeito certo de pensar diminui nossas perturbações emocionais, já que muitas delas são frutos das distorções cognitivas.

É importante ter em mente um objetivo: corrigir as distorções cognitivas.

Quando pensamos errado e temos muitas distorções cognitivas, há uma rigidez mental, ou seja, uma rigidez cognitiva: só pensamos de uma maneira específica.

Agora, quero apresentar quero apresentar as distorções cognitivas mais “famosas”.

1. Catastrofização

Faz com que eu acredite que tudo de pior vai acontecer.

A catastrofização é a mãe da ansiedade.

2. Pensamento tudo ou nada

Faz com que eu pense em termos de 8 ou 80. Ou sou um sucesso, ou sou um fracasso. Penso em termos dicotômicos.

3. Supergeneralização

Faz com que eu acredite que o que me aconteceu uma ou duas vezes irá acontecer sempre.

Podemos identificar a supergeneralização em frases e ideias que iniciam com “sempre” “tudo” “nada” “ninguém” “nunca” “todos”.

4. Minimização do positivo

Essa distorção faz com que eu me apegue a um detalhe e esqueça de enxergar o todo.

Percebemos a distorção em frases do tipo: “sim, mas…”.

5. Personalização

Faz com que eu ache que todos estão falando de mim, que as
coisas estão acontecendo por conta de mim e, também, que sou o único responsável por todos os acontecimentos.

6. Excesso de pensamento positivo

Me afasta da realidade.

A realidade passa a ser vista sem os deveres e direitos.

7. Vitimização

Faz com que eu interprete que o outro é responsável pelas situações ruins que estou passando.

Deixo de me tornar responsável pelas minhas ações e por minha vida.

8. Ditadura dos deverias

É a mãe do estresse.

Fico tenso(a) porque sempre acho que deveria fazer algo, deveria saber algo.

9. Leitura mental

Faz com que eu tenha certeza que sei o que o outro está pensando e também ache que ele tem o dever de saber o que eu penso.

É a distorção que mais merece destaque porque, quanto mais íntima a relação, mais leitura mental é feita.

Como trabalhar a correção da distorção cognitiva?

A intenção do profissional da saúde e educação é investigar para flexibilizar o pensamento, de forma a conseguir modificar a maneira de pensar.

Brincar de detetive é uma forma de atingir flexibilidade cognitiva, porque somente o fato da pessoa parar e questionar-se já é um grande avanço.

Dessa forma, quero compartilhar algumas perguntas que podemos fazer para auxiliar na correção dos pensamentos distorcidos.

  • Toda vez que eu pensei isso, isso realmente aconteceu ou só dei atenção à vez que isso se concretizou?
  • Quais foram as outras situações nas quais eu pensei isso e não se concretizou? O que foi que me auxiliou nessas vezes?
  • Quantas vezes tive esse pensamento e ele se tornou realidade?
  • O que eu diria para um amigo que estivesse passando pela mesma situação?
  • Quais as possibilidades do meu pensamento se concretizar?
  • Quais são as evidências de que o meu pensamento é verdade?

Ainda, uma ótima opção para trabalhar com adultos é a folha de exercícios abaixo.

E com as crianças?

Trabalhando a correção das distorções cognitivas nas crianças, é importante ter em mente que precisamos brincar sobre isso.

A brincadeira fica a seu critério.

Lembrando: quando trabalhamos em escolas, instituições, comunidades e empresas, utilizamos os pensamentos distorcidos de personagens fictícios para trabalhar a correção do pensamento.

Aqui se trabalha a prevenção e, dentro do consultório, se trabalha diretamente com a distorção cognitiva da criança.

Costumo trabalhar com uma folha de atividades, que deixarei abaixo.

Para a realização da atividade, primeiramente se pergunta a criança qual é a emoção que ela está sentindo.

Após, perguntamos qual é o tamanho da sua emoção (formiga, cachorro ou elefante).

Por fim, pedimos a ela que desenhe ou escreva aquele pensamento que fica martelando em sua cabeça e causando dor.

O pensamento martelo é uma analogia para a distorção cognitiva, porque o aprendizado precisa ser lúdico.

Depois disso, brincamos de detetive com as mesmas perguntas citadas acima.

Após, auxiliamos a criança a criar o pensamento joia.

Depois de criarmos o pensamento, perguntamos a ela novamente qual é a sua emoção e, ainda, qual é o tamanho dela.

Por fim, lembre-se sempre que a brincadeira protege.


Se você deseja saber mais sobre isso, realize sua pré-matrícula no nosso curso de extensão do Programa Educação Emocional Positiva.

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